Exposição: Vislumbres da Linha II Fernanda Branchelli
De 29 de Janeiro à 26 de Fevereiro de 2009.
Centro Municipal de Cultura Dr. Henrique Ordovás Filho Local: Rua Luiz Antunes,312. Bairro Panazzolo - Cidade Caxias do Sul, Rio Grande do Sul. fone: (54)3901-1316
Visitação: de segunda a sexta das 9h as 22h Sabados, domingos e feriados das 15h as 22h
Curadoria: Ana Zavadil e Mona Carvalho
obs.: mais informações "clicar" em cima dos convites.
A trajetória artística de Fernanda Branchelli é permeada pelo desenho e pela escultura. A sua ação passa do plano à realidade tridimensional. Através das mãos, com desenvoltura, uma linguagem enobrece a outra: o desenho representa a idéia e o pensamento situa-o no limiar da imaginação; a escultura constitui-se da forma e da matéria ocupando o espaço concreto. Os conceitos específicos de cada linguagem transpassam de uma à outra e a diferença que se estabelece entre elas é a temporalidade. No desenho o tempo escoa-se mais rápido, enquanto que na escultura ele é estratificado. A similaridade entre uma e outra ocorre através da linha.
A mostra Vislumbres da Linha II reúne uma série de desenhos que nos revelam grafismos em ritmos sinuosos compostos por signos que se multiplicam produzindo totalidades. O desenho surge como “depositário da verdade, dado que ali, na sua simplicidade complexa, seria muito difícil mentir.” (PASTA, 2008, p.84) pois, a partir da primeira linha depositada no papel, tudo pode acontecer; as marcas deixadas não podem ser apagadas, apenas retomadas ou transformadas sem lugar para arrependimentos.
A observação de uma imagem, seja ela fotográfica ou não, é o começo do processo criativo de Fernanda Branchelli. A empatia entre a imagem e a artista é fundamental e, a partir deste fato, surge o desenho cego, onde as linhas infringem marcas sobre o papel, delineando formas e criando movimentos. Como nos diz Icleia Cattani:
“A primeira criação, o primeiro impulso, no entanto, é fundamental: ele define o que virá a seguir, e é nele muitas vezes que o artista mergulha como num abismo, de onde emerge para atribuir significados às formas criadas. (2005, p.24)
Após o primeiro passo, o desenho é trabalhado em sua plenitude. Os traços consolidam-se em imagens, tanto antropomórficas, quanto zoomórficas. Os padrões gráficos intercalam as formas e constroem os espaços através dos materiais: o nanquim, a folha de ouro e a caneta gel. O desenho completa-se por meio desta combinação entre as matérias e os recursos técnicos empregados estruturados por um tratamento gráfico e cromático às figuras concebidas pela artista. O trabalho começa com a liberdade total da linha, “ (...) numa espécie de automatismo e depois, aos poucos, conferindo-lhes significados conscientes, sobrepostos às primeiras formulações.” (Obra citada,p.24) . A maneira tímida como o desenho começa acaba por perder-se no todo e toma formas consistentes ricas em detalhes e sutilezas.
As formas surgem do primeiro gesto e sinalizam uma construção delicada de várias etapas: o desenho cego, as colagens, a minuciosa tarefa de acrescentar a folha de ouro ou a de prata e a repetição de elementos que interagem entre as figuras. A elaboração rigorosa demonstra preocupação no fazer onde a qualidade técnica é prontamente observada.
Os desenhos nos encantam e nos convidam para um refúgio temporário: os círculos fazem-nos percorrer distâncias num ir e vir e os espaços vazios compõem as pausas onde o olhar descansa. O nosso olhar é aprisionado pelas séries de signos repetidos que se expandem e o encantamento está na tarefa de percorrê-los na busca de todas as informações ali contidas.
Os trabalhos atuais de alto grau de elaboração, onde padrões aparecem dentro e fora das formas, transformam-se em novas idéias no campo de atuação de Branchelli. Essas padronagens nos dão indícios de um caminho a ser trilhado em outra área: o design de superfície. A expansão do processo criativo, transitando para uma nova área, reitera a condição de hibridismo na arte contemporânea, onde as estratégias artísticas fundem-se com outros campos do saber e dentro da própria arte, em linguagens de percursos e técnicas diferentes.
NOTAS
Ana Zavadil, Bacharel em História, Teoria e Crítica de Arte.
REFERÊNCIAS
CATTANI, Icleia. O desenho como abismo. Porto Alegre: Porto Arte, v.13 n. 23 p.23-30. 2005.
PASTA, Paulo. Porque desenho in Disegno. Desenho. Desígnio. ORG Edith, Derdyk, São Paulo: Editora SENAC, 2007.
Abertura: 10 de setembro de 2008. Visitação: 10 a 24 de setembro de 2008. Das 14h às 18h Local: Av. Osvaldo Aranha, 522. Sobreloja. Bom Fim. Porto Alegre. RS.
CONFIRA O TEXTO DA CURADORA NOS ENDEREÇOS ELETRÔNICOS
“Desenhar é várias coisas. É lançar a linha no espaço, anarquicamente, mas com aquela ordem interna que só quem faz sabe. É estabelecer um continente, que aparentemente não contém nada, mas onde pode caber tudo (e onde cabe o vazio que é nada e tudo ao mesmo tempo). É criar relações entre coisas, dando pesos e valores. É falar de objetos e fazê-los falar. E finalmente é lançar um olhar para a realidade, procurando e achando significados”. Ester Grinspum
Os desenhos de Fernanda Branchelli têm uma pitada de tudo que se leu no belo texto de Ester Grinspum (2007, p.107). A artista lança suas linhas no espaço do papel sem ter uma pré-concepção do resultado final do trabalho. A sensualidade de uma linha mais curva acaba delineando corpos femininos ou de animais. As formas são traçadas com liberdade, a linha alcança autonomia indo e vindo, traçando curvas e retas. O nanquim, as folhas de ouro e prata e caneta gel preenchem os espaços onde as linhas se cruzam. Surgem as texturas sobre o plano e as cores que envolvem um espaço determinado; criam-se relações que justificam o todo, à medida que Fernanda constrói as linhas. Do puro movimento poético nascem ligações sutis que sugerem o vislumbre de um ser reconhecível. Da escultura veio o desejo de trazer a aparência tridimensional ao desenho, agregando a colagem em seu processo criativo. Os seus desenhos passam a ter diferentes planos indicando uma possibilidade na criação de volumes, além do movimento para o qual o olhar é instigado a seguir. As zonas mais densas e coloridas ou as que formam grandes contrastes entre o preto e o branco encarregam-se de conduzir o caminho a ser percorrido dentro do espaço da representação. A artista elabora seus desenhos com uma técnica refinada: alguns são ricamente trabalhados com diversos materiais, outros de maneira mais econômica com nanquim sobre papel, todos inscritos com a mesma desenvoltura, donos de magia própria que nos encantam, ao mesmo tempo em que nos incitam a buscar dentro das formas o reconhecimento da figura. Ela existe, pode estar nos vãos, mostrando-se pouco a pouco, como uma armadilha pronta a nos capturar. As sutilezas, a beleza e o rigor na construção técnico-formal concebem um conjunto fascinante para o nosso deleite e para a afirmação do desenho como uma linguagem independente que, cada vez mais, se expande e toma seu lugar definitivo na arte contemporânea, agregando adeptos e admiradores.
NOTA: Ana Zavadil, bacharel em História, Teoria e Crítica de Arte - UFRGS
REFERÊNCIAS:
GRINSPUM,Ester. Do desenho. In: DERDYK, Edith (org). Disegno.Desenho.Desígnio. São Paulo: Editora SENAC São Paulo, 2007, p. 99-108.